Um conflito entre amor e culpa.
A vida não é um resumo, ela é uma coletânea em constante atualização na qual uma repetição pode ser interpretada como mero erro de conduta (ou não). Ela é complexa, dinâmica e só nos dá uma chance de desfrutá-la. Nela nós podemos descobrir belezas sobre-humanas como, por exemplo, o amor. Um sentimento lindo, adimensional e novo – sempre novo, pois um amor nunca será igual a outro. Existe amor que só cresce com permissão, outros que não precisam disso. Ele é como um sorriso sincero, encanta, marca, mexe com a gente. É sublime. Mas então… Por que culpá-lo quando sofremos por algo/alguém que amamos?
Mania humana de não querer se expor e não assumir suas responsabilidades. A pessoa ama, com um tempo percebe o que sente, entrega-se e depois, ao sofrer, culpa o coitado do amor. Seria como dizer que se é feliz por causa da felicidade e nada mais. Percebe agora? A gente exerce grande e influente participação no desenvolvimento de tudo que sentimos. Aquele que não se prende ao que sente no fim não sente nada. Se encararmos os sentimentos como a essência do homem, um indivíduo sem eles seria como uma fruta sem sabor. Por que, então, culpar o amor? Ele não controla, ele participa. O homem não vive de amor, para amar talvez, mas não o conserva como suprimento. Amor preenche, não supre.
A verdade está na coragem de amar e sentir-se amado sem cobranças e tantas alienações. Aprisionar a si ou outrem não cabe para aquele que deseja amar. Parece fácil render-se às algemas do companheiro e culpar o que sentimos e não o que fazemos ou nos permitimos sofrer. Covardia. Afinal, atingir o inatingível é muito mais simples do que assumir as próprias derrotas. E nos deparamos num mundo assim, no qual nós mesmos ignoramos nossas atitudes numa pobre tentativa de não sofrer, quando estamos apenas adiando a dor do reconhecimento de nossos próprios erros.
E aí, a culpa é de quem mesmo?
É, a culpa é minha.
Por acaso vc fez esse texto pra mim?
Lendo novamente esse texto que mal sei como compus, respondo: não. Acho que o criei pra me encher de tapas nas tardes cruas dos dias (in)úteis.
Li este texto, numa altura em que me assaltam grandes duvidas sobre um amor que eu perdi há muito pouco tempo.
A pessoa era tudo para mim. Coloquei-me nas mãos daquela pessoa, para tudo e para nada. Desde os meus 18 anos que o conhecia, e fiz sempre tudo para não o perder. No entanto… perdi.
Apesar de ter feito de tudo, para não o perder, das demais cedências, da quase subserviência, própria do amor mais dependente, não deixei de errar quando estava com ele, e não deixei de me distrair e perder certos momentos em que poderia ter aproveitado melhor a sua companhia.. Apesar de tudo não evitei as falhas. Não evitei dizer e fazer coisas que também o magoaram.
Isto tudo para dizer, que ninguém está imune ao erro nas relações e que, apesar de as muito boas intenções que possamos ter, não podemos prever o quanto as nossas acções podem magoar ou fazer mal ao outro. Eu tinha a melhor das intenções e não evitei, por isso, de magoar.
Por esse motivo, não sei até que ponto podemos falar em erros numa relação. A não ser que sejam coisas verdadeiramente gritantes, que envolvam uma deliberada vontade de magoar e fazer mal ao outro. Não me parece que passe por aí, pelo erro, um melhor ou pior sucesso numa relação. O sucesso, talvez, passe muito mais por uma boa dose de amor. Pela dimensão e força dos sentimentos que o outro nutre por nós e que nós nutrimos pelo outro. Quando se gosta, perdoa-se.
Um bem haja, o caminho é longo até à serenidade e à paz de espírito.